Revista
Desmistificar & Incluir
DEFCON poder
DEFCON poder
Presidente da Pró – Inclusão e Conselheiro Nacional de Educação.

Quanto caminho se tem feito para entender o que é uma condição de deficiência! As pessoas com deficiência originaram medo (muito medo…) nas pessoas sem deficiência. Por este motivo, eliminaram-nas, amaldiçoaram-nas e aprisionaram-nas de forma a que elas não tivessem contacto com as pessoas da sua família e da sua comunidade. Este medo que só pode ser explicado ao puro nível animal: o medo que tem uma manada quando afasta um elemento doente para que os restantes não corram o risco de ser contaminados. Assim, durante muitos séculos a Humanidade teve um comportamento que em nada a distinguia dos animais herbívoros …
Levou algum tempo até se entender que uma condição de deficiência não era agressiva para os restantes e mais, que era possível diminuir o seu impacto. Levou ainda mais tempo a não olhar a pessoa com uma condição de deficiência como um inevitável infeliz, um desafortunado que, na verdade, não poderia esperar mais da sociedade do que pena, assistência, caridade e tolerância.
Feito este longo e difícil caminho, estamos ainda hoje em 2020 a enfrentar mitos que continuam a dificultar que os Direitos Humanos sejam para todos os humanos (incluindo, obviamente as pessoas com condições de deficiência – PCD). Falarei brevemente de três destes mitos:
O primeiro mito é que as pessoas com deficiência não podem ser autónomas e sempre serão dependentes. Esta afirmação é talvez parcialmente verdadeira para uma significativa minoria de PCD. Para a maioria delas, no entanto, este é um mito. Hoje as PCD estão mais presentes que nunca na formação profissional, na obtenção de emprego, na sua capacitação a todos os níveis. Isto significa que a autonomia da PCD não está – e isso é cada vez mais evidente – só dependente do que são capazes de fazer, mas dependem igualmente das condições que são criadas na sociedade para que o que elas conseguem fazer baste para serem autónomas. O Modelo de Vida Independente, os programas de educação, formação, transportes, etc. são uma prova que se conseguimos fazer mudanças no envolvimento as PCD tornam-se capazes de suprir as necessidades mais prementes da sua vida.
Um segundo mito é que as PCD são por natureza, tristes, frustradas e infelizes. Trata-se de uma herança do tempo em que a deficiência era vista como um castigo. Hoje sabemos que a grande maioria das pessoas com deficiência luta pela sua felicidade (como, aliás, o fazem as pessoas sem deficiência…) e conseguem níveis de satisfação com a vida em tudo semelhantes aos seus semelhantes. Alimentar o mito da infelicidade é perpetuar o estatuto de inferioridade, como se a condição de eficiência trouxesse inexoravelmente com ela uma dose de infelicidade. No entanto é fácil acabar com este mito: basta falar com PCD. Elas dizem como é.
O terceiro mito é sobre Inclusão. No que respeita à Inclusão penso que a discussão a ter é sobretudo sobre os caminhos que podemos e devemos trilhar para que ela seja possível. Não entendo (e isso assumo-o claramente como uma posição pessoal) que se discuta se a inclusão é boa e necessária para todos os humanos. E por várias razões: antes de mais porque é manifesto que a Inclusão é tão necessária e útil que o maior castigo que inventamos para as pessoas que cometem crimes é retirar-lhes esta possibilidade de estar com a sua comunidade. Já o navegador solitário Sabastian Naslund dizia no final numa das suas longas viagens pelos oceanos que “agora entendi o que a Humanidade já sabia há milhões de anos: não há maior punição do que ser afastado da sua comunidade”. A Inclusão das PCD é uma condição fundamental para o seu desenvolvimento, para a sua autonomia e para a sua felicidade. Quando se defende que, por a pessoas ter uma condição de deficiência não deveria ter tantas oportunidades de inclusão quanto os demais, estamos a laborar um grande erro. Seria com procurar recuperar uma planta seca retirando-lhe a água.
Muitos mitos permanecem sobre as pessoas com deficiência. Muitas vezes o medo, a caridade e a exclusão continuam a impedir estes humanos de usufruir de uma vida a que todos têm direito. Já a Declaração de Independência dos Estados Unidos afirmou no fim do sec. XVIII que “todos os seres humanos têm direito à Vida, à Liberdade e à Felicidade”.
É por isso que mais de 200 anos depois todos estamos convocados para desmontar estes mitos.
Revista DEFCON Poder da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, cofinanciada pelo Programa de Financiamento a Projetos do Instituto Nacional para a Reabilitação!
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