Revista Desporto Inclusivo
DEFCON poder
DEFCON poder
Testemunho de Maria João Morgado
Estas linhas são escritas precisamente 20 anos depois da minha primeira participação nos Jogos Paralímpicos de Sydney 2000, enquanto nadadora.
Este é um testemunho pessoal de como é possível alguém começar a nadar subornada a chupa-chupas e chegar aos pódios internacionais. Não é, nem pretende ser, um artigo científico, mas simplesmente despertar a vossa reflexão acerca das potencialidades do desporto e de como o encaramos.
Corria o ano de 1984, tinha 5 anos e fui integrada no programa de reabilitação através do Método de Halliwick, através do Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian, em Lisboa, acompanhada da minha mãe. Sob o lema de que «a natação vai fazer-te muito bem», lá fui…Recordo um grupo de participantes todos muito mais velhos e dependentes física e psicologicamente que eu. Sentia-me estranha e desenquadrada…os outros não falavam, não andavam, babavam-se…menos a Susana, amiga e companheira das Seleções Nacionais, com quem ainda hoje mantenho contacto. A minha mãe tinha (e ainda tem) medo da água. Eu, rapidamente deixei de precisar que ela me segurasse e ganhei autonomia…flutuava, deslocava-me, mergulhava e voltava à superfície, sem ajuda. Mais tarde, ainda no programa de reabilitação, aprendi a nadar de costas (havia o mito errado de que as pessoas com Paralisia Cerebral não conseguem nadar em decúbito ventral e, consequentemente, qualquer outro estilo para além de costas) e eu tinha que nadar, nadar muito…«fazia-me bem». Comecei a detestar a monotonia de olhar constantemente para o teto do insuflável que cobria as piscinas. Era a única criança e não percebia o que estava a fazer ali. Queria mergulhar, brincar na água, correr à volta da piscina, exasperar a paciência dos professores. Mas tinha que ser… «fazia-me bem», até ao dia que cheguei a casa com muitos chupa-chupas. Tinha-me portado bem…tinha nadado muitas voltas…de costas, sempre de costas. Diziam os livros que tinha que ser assim. Era algo inovador em Portugal, já testado noutros países.
Eu não gostava da natação! Gostava de estar na água, da liberdade de movimentos. Por volta dos meus 10 anos a natação acabou. Nunca percebi se foi o programa de reabilitação que acabou, ou se fui «convidada» a sair. O que importa reter é que foi aqui que tudo começou.
Em 1992, as Piscinas Municipais de Loures, GESLOURES (na altura com instalações em Odivelas e Loures), abriam ao público e faziam referência a aulas de natação para pessoas com deficiência, a famosa natação adaptada. Mais uma vez, fui inscrita nas aulas «à força». Estava na adolescência, o corpo mudava, eu ganhava peso, perdia mobilidade. Fui, obrigada pela minha mãe: «tem que ser, a natação faz-te falta»…Para meu espanto, fui colocada numa turma de crianças mais novas (ainda não tinham as tais aulas de natação adaptada) e sem deficiência. Apesar das minhas limitações, aprendi a nadar os estilos todos (afinal, nenhum professor ali tinha lido o tal manual que dizia que os indivíduos com paralisia cerebral só nadavam de costas, e ainda bem!)…Descobri também mais tarde que o método de Halliwick segue exatamente os mesmos princípios básicos de adaptação ao meio aquático pelos quais TODAS as pessoas têm que passar e dominar antes de aprender a nadar qualquer um dos estilos com regras formais.
Das aulas no tanque das crianças, à integração da equipa de natação adaptada, passaram apenas dois anos! 1994, o 1.º campeonato nacional de natação! Não é que eu comecei a gostar de nadar? O treino era duro, mas compensava. Não era para reabilitar, porque me «fazia bem», com objetivos que eu nunca percebi. De repente, havia a possibilidade de participar nos campeonatos da Europa, do Mundo, nos Jogos Paralímpicos… Fiquei a conhecer um admirável Mundo novo, viajei, fiz novos amigos, vivi experiências incríveis.
Terminei a carreira por opção própria em 2009, após o Campeonato Europeu com duas medalhas de bronze nos 100m e 200m livres e, ainda hoje, detenho o recorde nacional dos 200m, na minha classe.
Eu tive a sorte de sair do ciclo da reabilitação, só porque sim, da reabilitação só porque «faz bem» (conceito que ainda hoje tenho dificuldade em perceber), mas há quem não tenha e não descubra todo o potencial que há em si. Eu tive a sorte de ter professores e treinadores que pensaram fora da caixa, nunca desistiram de mim e acreditaram nas minhas potencialidades.
Mais do que medalhas e recordes, ficarão as atitudes, as memórias, as aprendizagens, os exemplos, as competências e os amigos!
Afinal, a menina desengonçada e gordinha que nadava graças a chupa-chupas, será para sempre nadadora Paralímpica e chegou onde só em sonhos julgava ser possível!


Revista DEFCON Poder da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, cofinanciada pelo Programa de Financiamento a Projetos do Instituto Nacional para a Reabilitação!
+351 211933943;
+351 916988486;
+351 912869443

