Revista Desporto Inclusivo
DEFCON poder
DEFCON poder
Isabel Costa, Diretora do Departamento do Desporto da Câmara Municipal do Seixal

Qual considera ser o papel do município na promoção do desporto inclusivo?
De acordo com os artigos 71º e 79º da Constituição da Républica Portuguesa de 1976, a Lei n.º 75/2013, de 12 de setembro (Autarquias Locais) e a Lei n.º 5/2007 de 16 de janeiro (Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto), o Município do Seixal deverá tentar garantir o acesso à prática desportiva de todos os munícipes, promovendo projetos desportivos e sociais de inclusão e igualdade de oportunidades à população com deficiência.
Qual/ quais as estratégias implementadas para o incremento do desporto para todos no município?
Julga-se que a principal estratégia passa pela relação de proximidade e de parceria estreita com as entidades da área da deficiência e do movimento associativo, criando projetos que permitem a implementação da prática desportiva adaptada.
Qual a vossa experiência na promoção de atividades de desporto para todos?
A experiência vem desde o 25 de Abril de 1974, pela parceria criada junto do movimento associativo, escolas e instituições do concelho. O apoio ao desporto para todos, alcançou resultados ímpares, desde o acesso à prática desportiva, passando pela formação e especialização, desporto escolar, construção de equipamentos desportivos, programação e execução de vários projetos desportivos, com carácter científico e técnico, que são desenvolvidos, com e para a população.
No Concelho do Seixal, um dos exemplos desta experiência alcançada é a Seixalíada, organizada pelo movimento associativo com o apoio das autarquias e que anualmente regista uma participação alargada de cerca de 200 iniciativas realizadas e cerca de 18500 participantes.
Qual/quais têm sido as maiores barreiras que o município tem encontrado relativamente à promoção do desporto inclusivo e de que forma as tem tentado ultrapassar? Por outro lado, quais são os facilitadores que têm encontrado?
O Município do Seixal, desde o 25 de abril de 1974, desenvolve o seu trabalho em prol da população, apoiando o movimento associativo e desenvolvendo projetos de alcance desportivo e social, criando uma dinâmica própria no que concerne ao “desporto para todos”. Exemplo disso é a Seixalíada, que este ano terminou a sua 36ª edição.
Por outro lado, as maiores barreiras sentidas foram as acessibilidades e a mentalidade de alguns dirigentes associativos, pela falta de conhecimento e de informação, que tinham na altura, sobre a prática desportiva adaptada.
O principal aspeto positivo foi o do executivo camarário ter tido a sensibilidade e a necessidade de criar e implementar um projeto desportivo para a população com deficiência, promovendo o alargamento da prática desportiva regular a esta população, através de parcerias com outras entidades do município.
Qual/ quais a(s) medida(s) que considera urgentes implementar para a promoção do desporto inclusivo?
A maior necessidade, neste momento, será a de apoiar na construção de espaços para as associações que desenvolvem vários projetos, no terreno, e que ainda não possuem instalações próprias, o que poderá condicionar o seu crescimento e oferta. Igualmente, o apoio na aquisição de viaturas adaptadas para as associações e para a própria autarquia.
Qual a importância do trabalho colaborativo e em parceria no âmbito da promoção do desporto para todos?
O “Desporto para todos” é transversal à sociedade, considera várias áreas sectoriais desde a 1ª infância, passando pelo turismo, à classe trabalhadora até à saúde e seniores. Por isso, sem parceria ou rede de parceiros este processo não seria possível. De acordo com o artigo 79º da Constituição da República Portuguesa de 1976, é competência legal e constitucional, do Município, a promoção da prática desportiva para a população.
No âmbito da promoção do desporto inclusivo, que conselhos daria…
O principal conselho poderá ser o de estarem bem informados ou de procurarem a informação correta que os pode ajudar e apoiar, e, também, de não terem receio, nem vergonha de procurar as entidades oficiais que estão aptas a apoiar e a encaminhar, de forma a garantir o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas e das suas famílias.
Rui Coelho, Energy Data Analyst

Qual considera ser o papel do clube na promoção do desporto inclusivo?
Na medida em que os clubes são os agentes de primeira linha da prática das modalidades, sentimos que é a eles que deve caber o papel de criar a oferta, de a divulgar e dinamizar também no caso dos desportos para todos.
Foi esse sentido de obrigação, até porque somos o único clube náutico aberto à população em geral no concelho de Almada, que nos motivou a desenvolver uma oferta de vela adaptada no clube.
Em termos do panorama geral, infelizmente devemos reconhecer que, por diversas razões, ainda não é no espaço da atividade regular dos clubes que acontece a maior parte da prática do desporto inclusivo. Mas é um cenário que acreditamos que esteja a mudar.
Qual a vossa experiência na promoção de atividades de desporto para todos?
Sendo um desígnio antigo, foi há cerca de 2 anos que se deu efetivamente início ao projeto de Vela Adaptada no Clube Náutico de Almada.
Uma vez que não existem muitos clubes em Portugal a desenvolver esta variante da modalidade, a nossa estratégia foi de avançar por fases. No início pretendeu-se apenas adquirir alguma experiência, proporcionando batismos náuticos a associações do concelho que trabalham com população com deficiência. Após avaliação desta fase, verificámos que tínhamos capacidade para desenvolver a prática da vela em Access (uma classe de vela adaptada) de uma forma regular, com vista a criar condições a quem pretenda ingressar no circuito competitivo desta classe.
Durante o ano de 2019 o clube adquiriu uma embarcação da classe Access, e deu início à prática regular da vela adaptada. Em 2020 teremos um grande desafio que é realizar a Prova de Apuramento Nacional da classe, que irá já contar com a participação de um atleta nosso.
Acreditamos que estamos a dar um bom contributo para o desenvolvimento do desporto inclusivo no nosso concelho.
Qual/quais têm sido as maiores barreiras que o clube tem encontrado relativamente à promoção do desporto inclusivo e de que forma as tem tentado ultrapassar? Por outro lado, quais são os facilitadores que têm encontrado?
As maiores dificuldades, nesta fase, têm-se prendido com a adaptação das infraestruturas às necessidades específicas dos praticantes.
Efetivamente o acesso à água requer um conjunto de equipamentos de que não estávamos dotados, e que tivemos de instalar, e, para além disso, ainda houve modificações que tivemos de efetuar nos existentes. Por outro lado, foi um desafio interessante para nós ter de encontrar soluções para os diversos problemas e questões que iam sendo levantados.
Há também que destacar o excelente apoio que temos recebido da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal de Almada, que se têm mostrado sempre muito entusiasmados com este nosso projeto.
Qual/ quais a(s) medida(s) que considera urgentes implementar para a promoção do desporto inclusivo?
Creio que é preciso ajudar os clubes a perderem os medos. Implementar um projeto de modalidade na versão inclusiva implica dar um salto, arriscar. Não é fácil este primeiro passo e, muitas das vezes, não se avança principalmente por receio. Há barreiras que precisam ser desmistificadas. Mas é claro que o aspeto financeiro, porque é necessário fazer um investimento, ainda continua a ser um grande obstáculo.
Qual a importância do trabalho colaborativo e em parceria no âmbito da promoção do desporto para todos?
As parcerias e colaborações que temos têm sido fundamentais para o Clube Náutico de Almada fazer a curva de aprendizagem que era necessário vencer para desenvolver o nosso projeto.
Neste ponto podemos dizer que a APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, até mais do que um parceiro, tem sido um orientador.
No âmbito da promoção do desporto inclusivo, que conselhos daria…
O conselho que deixaria para as pessoas com deficiência, e seus familiares, é o de se manterem atentos porque há clubes e associações com projetos novos para eles.
Para além das modalidades mais conhecidas no universo de desporto adaptado, há outras, como a Vela Adaptada, que estão ao seu dispor e que, se calhar, até gostavam de praticar, mas nunca imaginaram que estava ao seu alcance.




Drª Eulália Calado, Neurologista Pediátrica
Eulália Calado, Neurologista Pediátrica, Ex-Diretora do Serviço de Neurologia Pediátrica do Hospital D. Estefânia e Ex-Presidente da Federação das Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral. Atualmente Neuropediatra do Hospital Cuf Descobertas e do Centro Calouste Gulbenkian de Paralisia Cerebral.
Qual considera ser o papel da vertente da saúde na promoção do desporto inclusivo?
Os serviços de saúde, tanto a nível central (hospitais terciários) como comunitário (hospitais distritais, concelhios, centros de saúde e médicos particulares) podem e devem ter um papel pró-ativo e responsável na promoção do desporto inclusivo relativamente aos utentes com limitações físicas, sensoriais ou motoras.
Qual/ quais as estratégias implementadas para o incremento do desporto para todos na vertente da saúde?
Na minha atividade clínica, em que a deficiência complexa foi e continua a ser a regra, sempre olhei para a criança e jovem com limitações dum ponto de vista positivo. Não negligenciando as limitações, que podem ser contraindicação à prática de determinados desportos, tento sempre identificar competências e aptidões, que lhe permitam integrar-se num desporto que lhes dê prazer, seja exequível e sustentável e lhes permita socializar.
Qual a sua experiência na promoção de atividades de desporto para todos?
Desde que os médicos responsáveis pela criança com deficiência, comecem muito cedo a falar com os pais, professores e outros agentes envolvidos com a criança da necessidade da prática regular e a longo termo de um ou mais desportos, desmistificando receios e explicando-lhes como isso será não só benéfico para o neurodesenvolvimento e saúde mental da criança “diferente”, como também para o desenvolvimento das outras crianças ditas “normais” que com ela privarem, o desporto para todos vai surgindo naturalmente…
Qual/quais têm sido as maiores barreiras que enquanto profissional de saúde, tem encontrado relativamente à promoção do desporto inclusivo e de que forma as tem tentado ultrapassar? Por outro lado, quais são os facilitadores que têm encontrado?
As primeiras barreiras encontramo-las frequentemente nos pais e nos próprios jovens que arranjam desculpas atrás de desculpas para não arriscarem a prática dum desporto: demasiada sobrecarga com terapias, medo de serem rejeitados, horários incompatíveis, mais cómodo ficar em casa a jogar no computador ou a navegar na internet …Depois são ainda demasiados professores de educação física, tanto nas escolas como mesmo em ginásios públicos / associativos / particulares que recusam modificar os seus esquemas pré-concebidos para crianças “normais”, para os adaptar aos miúdos com limitações: têm medo porque não conhecem a patologia (alguns nem estão muito interessados em conhecê-la…), não querem assumir responsabilidades acrescidas, o seu horário não contempla reuniões ou telefonemas a outros profissionais envolvidos, nomeadamente médicos…
O disponibilizar o meu número pessoal para me contactarem, de acordo com as suas disponibilidades, para falarmos acerca das mais e menos-valias da criança e estratégias para as potenciar ou minorar respetivamente e o envolvimento das Associações de doentes na resolução de obstáculos, têm sido algumas das políticas com maior sucesso, segundo a minha experiência.
Os aspetos que julgo mais positivos e facilitadores no desporto inclusivo são a sensibilidade e motivação dos professores para os problemas da deficiência, com envolvimento e responsabilização dos pares em encontrar formas originais de participação dos seus colegas com necessidades especiais e isto desde o ensino pré-primário.
Qual/ quais a(s) medida(s) que considera urgentes implementar para a promoção do desporto inclusivo?
Obrigatoriedade de todo o aluno com deficiência participar na aula de Educação Física e praticar um desporto; bem como assegurar a acessibilidade e a mobilidade
Qual a importância do trabalho colaborativo e em parceria no âmbito da promoção do desporto para todos?
A comunicação e parceria entre os vários atores envolvidos no cuidar duma criança /jovem com deficiência, com especial relevo para a família e professores, é fundamental para a concretização dum desporto inclusivo, a par dum constante trabalho de promoção para a cidadania junto da população, em que a escola e município têm elevadas responsabilidades.
No âmbito da promoção do desporto inclusivo, que conselhos daria…
Às pessoas com deficiência diria (e digo-o constantemente) que a prática regular dum desporto deveria ser obrigatória no seu plano de cuidados, para o seu bem-estar físico e psicológico. Ninguém aguenta uma vida inteira na Fisioterapia, mas praticará com gosto um desporto que lhe agrade!
As famílias querem sempre fazer o melhor pelos seus filhos, sobretudo se tiverem uma deficiência! Querem curar, normalizar, terem acesso a múltiplos medicamentos e terapias, alguns ainda sem qualquer evidência científica. Graças à força imparável das famílias muitos avanços têm sido feitos no âmbito da deficiência e muitas Associações de doentes assumiram importância de relevo na defesa dos direitos dos doentes. Relativamente ao desporto, para a maioria dos pais, não é um assunto prioritário e esta situação tem de ser rapidamente modificada com uma melhor e mais consensual informação dos múltiplos agentes que lidam com a deficiência. Temos de lhes demonstrar (e convencê-los) que a prática regular de desporto pelos seus filhos é um dos melhores tratamentos que lhe podemos oferecer!
Relativamente aos clubes, que têm como principal missão aproximar as pessoas através do desporto, o seu papel é fundamental na socialização da pessoa com deficiência, através do desporto inclusivo.
Os serviços de saúde devem estar na linha da frente da promoção do desporto inclusivo, desmistificando tabus (exemplo; as crianças com epilepsia não podem praticar natação!) e melhorando a comunicação com os outros profissionais.
Outras informações que considere pertinente…
O problema das dificuldades de mobilidade da pessoa com deficiência é um dos principais entraves à sua participação em atividades de lazer e por conseguinte à sua socialização. Esta é uma responsabilidade dos municípios que deveriam fazer um levantamento do número e necessidades destas pessoas de modo a poder dar respostas adequadas e atempadas!
Autor: André Ramos

Revista DEFCON Poder da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, cofinanciada pelo Programa de Financiamento a Projetos do Instituto Nacional para a Reabilitação!
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