Revista
Papel das Famílias na Vida da PCD
DEFCON poder
DEFCON poder
Psicóloga Margarida Tomé do Centro de Atendimento, Acompanhamento e Reabilitação Social para Pessoas com Deficiência e Incapacidade da Associação de Paralisia Cerebral Almada Seixal

A família é de onde vimos, é o primeiro mundo que conhecemos. Antes de existirem, para nós, cidades, países e continentes, existe o colo da mãe, as brincadeiras do pai e o riso do irmão. Nos primeiros anos de vida mapeamos o mundo assim, em afetos e experiências em conjunto. Sabermos, de forma quase intuitiva, o que fazer para provocar um sorriso no outro e conseguirmos distinguir quem se aproxima pelo som dos seus passos são as nossas direções para navegar pela vida. Com o passar do tempo, vamo-nos apercebendo de que há caminho para lá do ninho – e vamos começando a voar, com a segurança de que lá poderemos sempre regressar e encontrar abrigo.
A família é de extrema importância para qualquer pessoa. Para a pessoa com deficiência, no entanto, assume um papel ligeiramente diferente. O ninho, enquanto casa, é muitas vezes um dos poucos espaços acessíveis e acomodados às necessidades da pessoa, onde tudo aquilo de que ela necessita está disponível. Idealmente, cada espaço frequentado pela pessoa espelharia isto – de forma física, sensorial e ao nível da informação – mas não é isso que se verifica na maioria das vezes. O ninho é também escudo e espada, já que a família é não só protetora da pessoa com deficiência, como também, muitas vezes, uma grande força motriz na luta pelos seus direitos. O ninho, na forma dos pais, continua presente durante mais tempo, mais momentos, mais contextos, para colmatar a falta de acessibilidades e suportes em tantos espaços físicos – cinemas, superfícies comerciais, espaços de lazer. Aprender a voar implica, muitas vezes, levar consigo o ninho, com todo o conforto que este traz, mas também com o seu peso sobre as asas.
Por outro lado, para a família em construção, a chegada da pessoa com deficiência traz consigo o repensar da estrutura e da forma do ninho. O que tinha sido antes construído, ainda que em imaginação, já não serve ou é demasiado largo. O ninho torna-se fluído, feito de algodão, de sonhos e de aprendizagem, e a cada dia – mesmo quando se pensa que está terminado – se acrescenta algo de novo. O ninho torna-se também espelho, e ilumina-se com cada conquista da pessoa com deficiência, ensinando-nos a importância de estar atentos a cada gesto. E, por vezes, abre-se uma porta ao mundo, e criam-se espaços maiores, ligações fortes, comunidades unidas.
E o voo começa, em bando.
Revista DEFCON Poder da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, cofinanciada pelo Programa de Financiamento a Projetos do Instituto Nacional para a Reabilitação!
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