Revista Transportes e Acessibilidades
DEFCON poder
DEFCON poder
Sabemos que são relativamente poucos os locais adaptados para pessoas com deficiência motora. Mas e os transportes? Estão devidamente acessíveis? É certo que já notamos alguns progressos, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Para esta reportagem, pretendeu-se ir até aos diversos transportes públicos do Seixal – barco, comboio, metro de superfície e autocarro –, de modo a analisar e, sucintamente, descrever as acessibilidades dos mesmos para pessoas com mobilidade reduzida.
Procurámos, também, contribuir para a sensibilização da população através da breve interação com os utilizadores dos transportes públicos.
Para este fim, e de modo a atingir um público-alvo mais alargado – nomeadamente, através das redes sociais, estendemos o convite ao Ator Jorge Corrula que amavelmente aceitou o nosso desafio e se mostrou inteiramente disponível para partilhar esta experiência connosco.

No Terminal Fluvial do Seixal, três pessoas que se deslocam em cadeira de rodas simularam um embarque – duas em cadeira de rodas elétrica e uma em cadeira de rodas manual. Em primeiro lugar, ao passar pelo torniquete, verificou-se que uma pessoa em cadeira de rodas manual passa, mas uma pessoa em cadeira de rodas elétrica necessita de ajuda de uma terceira pessoa, uma vez que o torniquete é um pouco estreito. Posteriormente verificou-se que a rampa de acesso à plataforma de embarque é bastante inclinada, pelo que, para pessoas em cadeiras de rodas elétrica, é acessível; contudo, para pessoas em cadeira de rodas manual, a deambulação autónoma torna-se complicada, sendo aconselhável a ajuda de uma terceira pessoa.
Quanto à rampa de acesso ao barco, foi sempre necessária a ajuda da tripulação para a proceder à entrada no barco.
Contudo, é de realçar que a inclinação das rampas, quer de acesso à plataforma de embarque, quer de acesso ao barco, estão dependentes das marés, pelo que a necessidade de ajuda de terceiros será variável.
É de elogiar a disponibilidade da tripulação e de toda a equipa do Terminal Fluvial do Seixal, pois mostram-se sempre recetivos a ajudar nestas situações.

Na Estação Ferroviária de Corroios, verificou-se facilidade na passagem pelas cancelas de acesso às plataformas, quer no caso de pessoas em cadeiras de rodas manuais, quer no caso de pessoas em cadeiras de rodas elétricas. Contudo, é de referir que, no caso de pessoas com limitações a nível da mobilidade dos membros superiores, deverá ser outra pessoa a validar o cartão de acesso.
Esta estação apresenta rampas de acesso à plataforma de embarque.
Quanto a estas rampas, verificou-se que, dada a sua extensão e inclinação, para pessoas em cadeira de rodas manual que viajem sem acompanhante, a subida é complicada, extremamente difícil e cansativa; contudo, para uma pessoa em cadeira de rodas elétrica, esta tarefa é bastante fácil. Os comboios ainda não têm rampas próprias, mas a empresa encontrou uma solução alternativa através do uso de rampas portáteis que facilitam o embarque ou desembarque, tanto
de pessoas em cadeiras de rodas manuais, como em cadeira de rodas elétricas. É, ainda, de elogiar a disponibilidade da equipa da Fertagus para agilizar este procedimento.
Como referido anteriormente, pudemos contar com a colaboração do ator Jorge Corrula, que aceitou o desafio de se sentar numa cadeira de rodas manual e realizar esta experiência de um ponto de vista diferente daquele que lhe é habitual. Desde o primeiro momento, o ator mostrou-se extremamente interessado nesta temática, demonstrando muita convicção na sua opinião de que “se calhar, uma maneira de nós trabalharmos a inclusão da deficiência seria excluindo a ignorância”.
Antes de partirmos em direção à primeira estação, numa pequena entrevista que o ator nos concedeu, já sentado na cadeira de rodas manual, o mesmo referiu que aceitou participar nesta experiência uma vez que sente que acha inacreditável como é que, nos dias de hoje, ainda tem de se lutar para conseguir que um simples transporte público seja acessível para todos, expressando-se no sentido de que também não entende como os transportes públicos não estão preparados para receber pessoas com deficiência numa base diária e sem limitações.
Na página de Facebook da APCAS poderão encontrar conteúdo exclusivo relativo à entrevista com o ator Jorge Corrula.
Na Paragem de Autocarros de Corroios, procurámos entrar num destes veículos. Nesta tentativa, deparámo-nos com múltiplas barreiras – que começam com as dificuldades sentidas ao atravessar a passadeira, pois existem pequenas elevações no passeio que dificultaram a locomoção, especialmente para pessoas em cadeira de rodas manual.
Para além disso, na paragem de autocarros foi necessária bastante precisão relativamente à condução das cadeiras até chegarmos ao autocarro, pois os pilares da paragem dificultam a passagem, principalmente para pessoas em cadeira de rodas elétrica. Aquando da entrada para o autocarro, verificou-se que o mesmo tinha uma rampa de acesso, sendo que para pessoas em cadeiras de rodas elétricas o acesso se mostrou muito difícil, dada a inclinação da mesma.
Para pessoas em cadeira de rodas manual verificaram-se algumas dificuldades, novamente devido à inclinação da rampa, sendo útil o apoio de uma terceira
pessoa.
É de realçar a disponibilidade e ajuda que nos prestou o motoristas do autocarro. Ainda em contexto interventivo, foi possível abordar alguns cidadãos, nos moldes de um VoxPop, de modo a fazer um breve apanhado das opiniões e reações dos mesmos àquilo que estavam a testemunhar. Nesse sentido, foi interessante notar a mudança na expressão facial de quem nunca se tinha apercebido das barreiras existentes relativamente às acessibilidades dos transportes públicos.
Foi interessante, também, ouvir as palavras espontâneas de elogio pelo trabalho que estávamos a desenvolver – “este é um trabalho fundamental, para haver mudanças reais e importantes, no que diz respeito às acessibilidades para pessoas com deficiência; ainda estamos longe de um Portugal acessível, mas temos de lutar por ele”.

Na Estação do Metro de Corroios, verificámos que no acesso ao metro, existe um pequeno espaço entre a plataforma de embarque e o metro em si, o que, para pessoas em cadeira de rodas elétricas, não pareceu constituir um problema, dado o tamanho das rodas da mesma, mas para pessoas em cadeira de rodas manual, foi declaradamente um obstáculo, tornando necessária a ajuda de uma terceira pessoa.
Já dentro do metro, foi possível notar que existem lugares específicos para as pessoas em cadeiras de rodas.

Numa breve entrevista após a experiência, o ator Jorge Corrula referiu que se apercebeu de que “há muita coisa a fazer” e que seria muito importante para as pessoas com mobilidade reduzida poderem “subir para os transportes públicos sem necessitar da ajuda de ninguém”. É de referir, contudo, que o ator ficou impressionado pela positiva com o facto de, com esta experiência, ter dado “para ver que há disponibilidade das pessoas ajudarem, há essa sensibilidade”.
Quanto às possíveis soluções, Jorge Corrula salienta, que talvez fosse importante convidar as pessoas “a sentarem-se também numa cadeira e perceberem as efectivas dificuldades (…), porque eu acho que a maioria das pessoas não tem a noção”.
Considera, ainda, que há pequenos detalhes que têm de ser trabalhados – “algumas ligações técnicas que é preciso ajustar” –, como por exemplo não construírem pilares nas paragens e que isso “são pequenas coisas que podem mudar o (…) dia a dia por completo”. O ator constatou, então, que se estas
dificuldades fossem ultrapassadas, a qualidade de vida das pessoas com deficiência mudaria totalmente, para melhor.
Com esta reportagem, procurámos contribuir um pouco para a mudança da mentalidade da população em geral, bem como daqueles que estão em posição de tomar decisões no que diz respeito à melhoria das acessibilidades, uma vez que a maioria das pessoas não se apercebe destes problemas, pois nunca foram confrontados com os mesmos. Com tudo isto em mente, estende-se um solene e sentido agradecimento ao ator Jorge Corrula e às entidades que nos possibilitaram a realização deste artigo!

Revista DEFCON Poder da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, cofinanciada pelo Programa de Financiamento a Projetos do Instituto Nacional para a Reabilitação!
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