Revista Turismo Acessível
DEFCON poder
DEFCON poder
Testemunhos de Pessoas com Deficiência, familiares, voluntários – Barreiras no Turismo
O turismo acessível vai muito além da eliminação de barreiras físicas, trata-se de garantir o direito de todos viajarem com dignidade, conforto e autonomia. No entanto, para muitas pessoas, essa experiência ainda está longe de ser plena.
Nesta edição, damos voz a quem vive estes desafios na pele. Através de testemunhos, partilhamos histórias, obstáculos enfrentados e sugestões de melhoria feitas por quem melhor conhece a realidade.
Testemunho sobre Turismo inclusivo – Miguel Pires
Quando vou viajar para qualquer lado, tenho que saber se esses sitios, são acessíveis a uma pessoa que se desloca em cadeira de rodas, como por exemplo saber se o hotel tem quartos com portas largas e com casa de banho adaptada, assim como elevadores com tamanho suficiente para que a minha cadeira elétrica possa entrar. Saber se restaurantes, cafés, museus e jardins têm passeios rebaixados com rampas de acesso e se há estacionamento para deficientes perto, porque me desloco numa carrinha adaptada.
Quando fui numa colónia de férias aos Açores deparei-me com algumas barreiras, portas estreitas do avião para entrar e tive que ir sentado em primeira classe para que as minhas pernas pudessem ficar estendidas. Em alguns parques o acesso era complicado devido ao desnível existente.
Miguel Pires
Testemunho sobre Turismo Inclusivo – Cristina Pires (Familiar)
As Barreiras nas Atrações Turísticas para Pessoas com Deficiência
Sou irmã do Miguel Pires, um jovem com paralisia cerebral que utiliza uma cadeira de rodas elétrica. Ao longo dos anos, tenho acompanhado de perto as inúmeras barreiras que enfrentamos quando queremos explorar atrações turísticas, viajar ou simplesmente aproveitar um momento de lazer. Gostaria de partilhar algumas das dificuldades mais recorrentes, na esperança de sensibilizar para a necessidade urgente de melhorar a acessibilidade em Portugal.
Alojamento: A Falta de Espaço e Acessibilidade
Uma das maiores dificuldades que enfrentamos prende-se com o alojamento. Muitas vezes, mesmo os hotéis que se anunciam como acessíveis têm quartos pequenos, onde mal cabe uma cadeira de rodas elétrica. O espaço entre os móveis é reduzido, dificultando a movimentação. Para não falar dos elevadores, que são frequentemente demasiado pequenos para uma cadeira de rodas mais robusta.
Além disso, nem sempre há casas de banho adaptadas, especialmente em alojamentos económicos ou de menor dimensão. Já me deparei com situações em que os espaços publicitados como acessíveis tinham apenas casas de banho comuns, impossibilitando o uso adequado por pessoas com mobilidade reduzida.
Museus: Inclusão que Fica Aquém
Recentemente, visitei o museu Quake – Museu do Terramoto, em Lisboa, com o Miguel. Trata-se de um espaço novo, moderno, mas infelizmente falha na inclusão. O museu possui três salas de simulação do terramoto, mas em nenhuma delas o Miguel conseguiu participar. Duas dessas salas tinham degraus que impediam o acesso, algo que poderia ser facilmente resolvido com uma rampa pequena. Na sala da igreja, a experiência do simulador só estava disponível para quem se sentasse nas cadeiras normais, algo impraticável para quem, como o Miguel, depende de uma cadeira de rodas elétrica.
Outras experiências anteriores também mostraram que, mesmo ao ligar para confirmar a acessibilidade de certos museus, sou informada de que são “acessíveis”, mas na realidade o acesso limita-se ao rés do chão, deixando várias áreas inacessíveis após o pagamento do bilhete completo.
Restaurantes: O Labirinto da Mobilidade
Os restaurantes, por sua vez, são outro desafio constante. Prefiro espaços maiores porque em estabelecimentos pequenos é quase sempre necessário que os clientes se levantem, as mesas se afastem e o espaço seja reconfigurado para o Miguel poder entrar. Isso é desconfortável para todos e afasta-nos muitas vezes de certos locais.
Mobilidade: Uma Viagem que se Transforma num Filme de Terror
Viajar de avião com o Miguel foi uma experiência incrível, mas desgastante. O Miguel não pode viajar num lugar normal, pois não consegue permanecer sentado numa cadeira comum do avião. Por isso, teve de viajar em primeira classe, onde o lugar lhe permitia estar um pouco deitado. O custo da viagem foi exorbitante, tornando a deslocação de pessoas com deficiência extremamente dispendiosa.
Além disso, é incompreensível que, no século XXI, a cadeira de rodas elétrica não possa entrar no avião, enquanto nos comboios/metro/autocarro isso já é possível. Porque não reservar alguns lugares específicos para cadeiras de rodas nos aviões? Isso facilitaria imenso a vida das pessoas com mobilidade reduzida e as suas famílias. Após a chegada ao destino, também surgem dificuldades em encontrar um transporte adaptado que permita sair do aeroporto, a não ser que tudo tenha sido previamente tratado com grande antecedência.
Também os transportes públicos em Portugal continuam a deixar muito a desejar no que toca à mobilidade. Ainda há muitos autocarros e estações de metro que não garantem acessibilidade, criando entraves constantes na deslocação diária de pessoas que dependem de cadeiras de rodas.
Uma Reflexão Necessária
O Miguel e tantos outros jovens com mobilidade reduzida têm o mesmo direito de desfrutar do património cultural e turístico do nosso país. Infelizmente, a falta de acessibilidade continua a ser um obstáculo frequente. E quando falamos de espaços novos, como o museu Quake, ou de infraestruturas modernas, como os aviões, é difícil compreender a falta de visão inclusiva no planeamento.
É urgente que as entidades públicas e privadas percebam que acessibilidade não é apenas uma rampa à entrada ou um elevador estreito. Acessibilidade é criar condições reais para que todos, independentemente da sua condição física, possam viver experiências com dignidade e igualdade.
Cristina Pires



Revista DEFCON Poder da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, cofinanciada pelo Programa de Financiamento a Projetos do Instituto Nacional para a Reabilitação!
+351 211933943;
+351 916988486;
+351 912869443

