Revista Voluntariado
DEFCON poder
DEFCON poder
Olhando apenas ao significado constante no dicionário, o voluntariado – qualidade ou situação daquele que é voluntário, remete-nos logo para aquele que “faz de livre e espontâneo vontade”, “sem constrangimento”, “que procede espontaneamente”.
E são muitas as interpretações e definições que, no senso comum, podemos acrescentar àquelas que há pouco enumerei…
Mas como é na prática? Bem, na prática talvez seja mais simples de explicar segundo dois vetores – quem dá, e quem recebe.
Começo pelo primeiro, contando-vos a minha história no voluntariado. Tudo começou há um pouco mais de uma dúzia de anos… Estava eu a assistir a uma demonstração de Boccia num espaço exterior, demonstração aberta à participação da comunidade, na qual todos os presentes, independentemente da idade e condição, podiam interagir com os atletas e com a modalidade. Ainda a APCAS – Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal não era a APCAS, mas o Núcleo Almada-Seixal da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa.
Já havia algum tempo que vinha criando na minha mente a ideia de que, para além da minha vida académica, um ou outro “entretém” de tempos livres, família e amigos, gostaria de ter uma ligação com pessoas novas, gostaria de me associar a uma causa. Estava ali à minha frente, ligada à Paralisia Cerebral, comunidade onde me incluía (e incluo) mas com a qual não tinha contacto que não fosse para terapias e vigilância. Houve naquele dia outra coincidência: reencontrei, enquanto assistia à demonstração, uma amiga que não via há uns anos e, coincidência maior, era voluntária em atividades que aquele grupo dinamizava! Daí a tornar-me voluntário levou apenas alguns minutos de conversa, e não mais parei…
São inúmeras as tarefas que um voluntário pode assumir, dentro da sua disponibilidade, mas sobretudo, com dedicação e compromisso. O voluntário deve envolver-se numa causa que lhe seja querida, de peito aberto, de forma desinteressada. Seja em angariação de fundos, em eventos de socialização, apoio social, tarefas de bricolage até, intervenção sobre o ambiente/clima, apoio a animais, etc., etc. O importante é envolver-se!
Em troca recebe ensinamentos, momentos de partilha e cumplicidade, gargalhadas, possibilidade de testemunhar mudanças na sociedade devido à sua intervenção, puro lazer até. Ganha novas experiências e modifica ideias prévias, melhora enquanto ser humano.
Dependendo das dinâmicas das atividades em que se envolva, podem até surgir oportunidades de índole profissional: seja ao nível de oportunidades formativas / de capacitação, como de envolvimento enquanto colaborador em projetos. Nunca imaginei, durante aquela demonstração de Boccia, que me viria a tornar Assistente Técnico Desportivo, treinador ou árbitro de Boccia ou mesmo colaborador em projetos da atual APCAS…
Há também aqueles que recebem o voluntariado. No caso específico da APCAS, falamos da instituição e das suas pessoas – pessoas com Paralisia Cerebral e doenças neurológicas afins, as suas famílias, e muitos outros cidadãos a quem a APCAS já chega.
O envolvimento dos voluntários é fundamental à realização de muitas atividades, pois traz mais “um par de mãos para trabalhar”. O voluntário traz ideias, traz “lá de fora” o envolvimento da sociedade civil para dentro das instituições e ajuda a que estas também se abram (ainda) mais para a sociedade, e não se mantenham fechadas sobre si mesmas e sobre a comunidade que servem. Com os voluntários a “família” torna-se maior. Os utentes ganham colegas de atividades, ganham novos amigos – quase sempre externos ao ambiente institucional, o que abre horizontes. As famílias beneficiam também deste envolvimento – diversificam-se respostas e atividades, e aligeira-se o envolvimento quase sempre necessário de um familiar em tudo o que faz.
Referi que podia abordar-se esta temática segundo dois vetores e, invariavelmente, a pessoa com deficiência marca quase sempre presença no lado de “quem recebe” e muito poucas vezes no lado de “quem dá”… Ao invés de meras beneficiárias, as pessoas com deficiência deviam ser mais envolvidas em processos de voluntariado. Deste modo fomentar-se-ia a sua autonomia, a sua emancipação, um maior envolvimento nas instituições, inclusivamente enquanto dinamizadores e dirigentes. Pessoas com deficiência, mas cidadãos interventivos, na sociedade e também na sua própria vida. Bem sei que isto não consegue mudar-se de um dia para o outro, mas há-que começar por algum lado…
Procura a tua causa, envolve-te, e verás…!
Autor: Luís Isidorinho, Vogal da Direção da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal


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