Revista Empregabilidade
DEFCON poder
DEFCON poder
Atualmente, tem-se verificado na sociedade a existência de diversos fatores que fomentam a exclusão social. Desde o desemprego estrutural, a desqualificação social, a desumanização do outro, a fome, a população de rua, a inacessibilidade a bens e a serviços, à justiça, segurança e cidadania. Apesar da diversidade de fenómenos que contribuem para a exclusão, a deficiência tem-se demonstrado uma barreira no que concerne ao recrutamento de novos empregados, no mercado laboral (como podemos verificar nos resultados abaixo).
As pessoas com deficiência são vítimas de representações sociais negativas, pelas suas limitações físicas, sensoriais ou mentais, que comprometem a sua participação. Esta vulnerabilidade é comprovada pelas taxas de empregabilidade, quando equiparadas com a população sem deficiência. Estes resultados podem ser explicados pelas dificuldades das instituições, empresas e estruturas sociais em adaptar as suas estruturas e adequar os seus postos de trabalho às necessidades e caraterísticas das pessoas com deficiência e/ou incapacidade.
Em 2001, a taxa de desemprego era de 9,5% para as pessoas com deficiência e de 6,8% para as pessoas sem deficiência, destacando-se o desemprego no sexo feminino quando comparado com o sexo masculino, em ambas as populações. No sexo feminino a taxa era superior em mulheres com deficiência.

Figura SEQ Figura \* ARABIC 1. Taxa de desemprego em pessoas com e sem deficiência.
Fonte: Censos 2001, XIV Recenseamento Geral da População; Cálculos INE/ISS,IP
Segundo a LUSA (2018) o relatório “Pessoas com Deficiência em Portugal – Indicadores de Direitos Humanos 2018” evidenciou que o desemprego entre as pessoas com deficiência aumentou 24% entre os anos de 2011 e 2017. Apesar do aumento do número de pessoas colocadas através do Instituto de Emprego e Formação Profissional, apenas 11% das pessoas com deficiência registadas foram colocadas no ano de 2017.
No mesmo ano, a taxa de emprego foi menor em pessoas com deficiência grave, assim como em pessoas com deficiência com idade superior a 25 anos, que procuravam um novo emprego ou se encontravam desempregadas há mais de um ano.
O risco de exclusão social ou pobreza evidenciou-se superior nas pessoas com deficiência em comparação com a população sem deficiência, sendo mais elevado em Portugal do que na União Europeia.
Fonte: Lusa, 2017
Autores: André Ramos
Chama-se Vanessa Silva e é licenciada na área de “Cinema, Televisão e Cinema Publicitário”.
“Tenho 33 anos de idade e tenho Paralisia Cerebral. O meu percurso escolar foi normal, ou seja, da creche até à Universidade. No entanto, devido à minha patologia sofri alguma descriminação e consequentemente, exclusão durante o Ensino básico e Secundário, sobretudo nas horas dos intervalos.
No Ensino Básico, como não conseguia acompanhar os meus colegas nas corridas e brincadeiras que faziam entre eles e tinha receio que me dessem encontrões ao passarem por mim, não respeitando a minha falta de equilíbrio, muitas das vezes refugiava-me na companhia das auxiliares de ação educativa. Mesmo assim, não invalidava que alguns mais atrevidos, não passassem por mim e dissessem coisas negativas a meu respeito que me magoavam muito. Algumas vezes, incentivada pelas auxiliares, juntava-me aos meus colegas de turma. Sentava-me a vê-los brincar uns com os outros e alguns até puxavam conversa comigo. Aí, sentia-me feliz, mas havia sempre alguns que ao passarem por mim, riam-se da minha fisionomia, o que me entristecia profundamente. Sentia-me muito mal comigo mesma e com o meu corpo. Perguntava-me muitas vezes: “Porque é que nasci assim? Porque é que não consigo me mexer, andar e correr como os outros?” Em vez de defender-me da rejeição/exclusão a que estava a ser sujeita, refugiava-me em mim própria, no meu silêncio/sofrimento.
Nas salas de aula, tinha colegas que me estimavam e eram meus amigos, principalmente, a minha colega de secretária. No entanto, já no 9º ano, tive dois colegas que me fizeram mal. Quando a professora estava distraída, eles gozavam-me, assopravam aos meus ouvidos quando passavam por mim e em algumas aulas práticas, empurravam-me e colocavam-se na minha frente para não me deixarem passar. Os restantes colegas assistiam a tudo, sem nada fazer. A professora só se deu conta de toda esta situação no final do ano letivo.
No Ensino Secundário, numa escola maior, a exclusão foi mais notória. Mais adultos, tanto os meus colegas de turma, como os outros alunos, tinham outros interesses do que correr e brincar. Era a altura dos primeiros namoros. Eu sentia-me excluída porque ninguém me chamava para conversar, passear, estar junto. Passava os intervalos junto das auxiliares e eram elas que me levavam para as salas, refeitório e de um pavilhão para o outro. Devido às minhas dificuldades de locomoção, eu também não me aventurava a ir para junto deles. Tinha receio de cair e de ser gozada.
Na Universidade, foi melhor. Já conversava mais com os meus colegas, pois não me gozavam e me aceitavam tal como sou. No último ano da minha licenciatura, fiz um projeto cinematográfico que foi um dos selecionados para ser produzido. Fui a guionista e realizadora deste projeto, uma curta-metragem que posteriormente, foi exibida em 2 Festivais de Cinema.
A entrada para o mercado de trabalho, foi difícil. Fui vítima de preconceito. Enviei o meu currículo para várias produtoras, sem mencionar a minha patologia. Através das minhas notas, fui chamada por uma grande produtora televisiva para uma entrevista para a vaga de realizadora de uma série muito conhecida. Compareci à entrevista, acompanhada pelos meus pais. Quando o produtor me chamou, foi notório na sua expressão facial, que não esperava encontrar uma candidata com deficiência. A entrevista durou 5 minutos… acho que nem isso!
Na tentativa de fazer o que estava ao meu alcance para conseguir aquela oportunidade, pedi ajuda ao coordenador da minha licenciatura que ao falar com o produtor que me entrevistou, disse que eu não reunia capacidades físicas para estar numa régie televisiva. (Quem trabalha numa régie televisiva, tem de estar sentado a controlar as câmaras de filmar e o trabalho dos atores.)
Se eu consegui ser a realizadora de uma curta-metragem, também reunia condições físicas para trabalhar numa régie. Sentindo-me profundamente desiludida, descriminada e excluída, optei por tentar um emprego na área de Administração e hoje, estou há 5 anos empregada na APCAS- Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal.”


Revista DEFCON Poder da APCAS-Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal, cofinanciada pelo Programa de Financiamento a Projetos do Instituto Nacional para a Reabilitação!
+351 211933943;
+351 916988486;
+351 912869443

